3. ESPECIAL 17.4.13

1. SIM, EU POSSO... ...MAS A INFLAO PODE MAIS
2. UMA DAMA DO LADO DIREITO DA HISTRIA

1. SIM, EU POSSO... ...MAS A INFLAO PODE MAIS
O tomate virou o grande smbolo do desconforto e da apreenso dos brasileiros com a volta da inflao. O governo, at agora, pisou no tomate: usou apenas paliativos para enfrentar o problema.
ANA LUIZA DALTRO E ADRIANO CEOLIN

     Os fiscais brasileiros de Foz do Iguau, na fronteira do Paran com a Argentina e o Paraguai, tiveram trabalho extra nos ltimos dias: eles precisaram combater o contrabando de tomate. O trfico ganhou fora porque, no Brasil, o fruto chegou a custar o dobro do cobrado nos pases vizinhos. O tomate liderou a alta de preos nos supermercados nos trs primeiros meses do ano, com um reajuste mdio de 60%. Em relao a igual perodo do ano passado, o aumento passou de 120%, e o quilo bateu nos 10 reais. Seu preo virou piada nacional. Dezenas de charges correram pela internet comparando o tomate a jias valiosas e obras de arte. Pena que aquilo que ele simboliza  a volta da inflao  no tenha graa nenhuma. 
     De acordo com os nmeros do ndice de Preos ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgados pelo IBGE na semana passada, a inflao acumulou uma alta de 6,59% nos doze meses encerrados em maro, estourando assim o teto da meta inflacionria estabelecido pelo prprio governo. O centro da meta oficial  4,5%, com uma tolerncia de at 6,5%. Depois de muito tempo adormecido, o termo inflao voltou a cair na corrente de comunicao dos brasileiros. Boa parte da alta se deveu de fato aos alimentos. Uma combinao de chuvas em demasia em algumas reas produtoras com seca em outras reduziu a oferta de vegetais populares nas refeies dirias dos brasileiros. A seca no Nordeste, por exemplo, quebrou a safra da mandioca, e o preo da farinha subiu 151% no ltimo ano. Simples seria se a culpa pudesse ser atribuda unicamente s intempries. O governo, na verdade, tem pisado no tomate j faz algum tempo quando o assunto  o combate ao reajuste de preos. Em menos de dois anos,  a segunda vez que a inflao estoura o limite superior da margem de tolerncia. Desde o incio do mandato de Dilma Rousseff, o IPCA no esteve em nenhum momento abaixo do centro da meta, de 4,5%. No se pode, portanto, atribuir a escalada inflacionria a fatores circunstanciais e transitrios. A presidente Dilma afirmou certa vez que culpar os raios pelos apages no fornecimento de energia deveria ser motivo de riso. Da mesma maneira, culpar os fenmenos meteorolgicos pelo aumento da inflao tambm deve ser motivo de chacota. Para muitos economistas, a realidade dos preos supera os prprios ndices oficiais de inflao. 
     Mas essa ainda no  a maior preocupao. O que assusta mesmo  o governo demonstrar dia aps dia desconhecer as causas do processo inflacionrio. Inflao no  aumento de preos. Inflao  a perda do poder de compra da moeda. E por que a moeda perde poder de compra? Porque ela  mais abundante do que os produtos  venda. Se houvesse mais produtos do que moeda para compr-los, ocorreria o fenmeno inverso. As pessoas comprariam mais com menos dinheiro. Isso sabe qualquer veterano da herica batalha contra o drago inflacionrio travada no governo Itamar Franco por seu ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso. Aumento de preos  carestia. Inflao  bicho mais tinhoso.  praga que se alastra silenciosa e rapidamente pelo mecanismo da indexao  cujo efeito, para a inflao,  o mesmo do primeiro gole para o alcolatra, a abertura das portas do inferno. Carestia se combate com corte de impostos, com negociao entre produtores, intermedirios e consumidores. Com a inflao, no tem conversa. Ela s entende uma coisa: aumento dos juros, corte de gastos do governo e aperto no crdito  todas medidas impopulares. Por ter feito dos juros baixos uma bandeira poltico-eleitoral, o governo se recusa a ver a realidade e insiste em segurar os preos por mecanismos que nunca funcionaram em nenhum tempo ou lugar  pelo menos sob o regime democrtico. Em vez de combater a inflao com as maneiras tradicionais e eficazes, pela conteno dos gastos pblicos, aumento na taxa bsica de juros e restrio ao crdito, o governo recorre, cada vez mais, a paliativos transitrios. Tudo em nome da obsesso de manter os juros baixos e assim, pretensamente, estimular o crescimento. "Um pouco mais de inflao  algo bom para o PIB.  nisso que se acredita em Braslia hoje", afirma o economista-chefe da MB Associados, Srgio Vale. "Cristina Kirchner levou essa crena ao extremo. Curar a inflao de quase 30% ao ano com a qual os argentinos esto vivendo hoje ser doloroso. No existe mgica. Uma baita recesso ser necessria, e algum precisar fazer isso no futuro. Mas certamente no ser ela." O combate  inflao com artifcios tem pernas curtas. A ineficcia total da poltica de paliativos tem ficado escancarada, tambm no caso brasileiro. A interveno constante do governo na economia assustou os investidores, e o volume de recursos aplicados na expanso da capacidade produtiva entrou em queda  exatamente o contrrio do que deveria ocorrer em uma economia saudvel que almeje o crescimento duradouro e no inflacionrio. A atividade econmica mantm-se semiestagnada. Agora at mesmo o consumo, que permanecia em um nvel vigoroso, d sinais de arrefecimento. Por qu? O aumento dos preos reduziu o poder de compra da populao, que, j endividada, teve de rever seus gastos. 
     Para completar, surgem as presses pela reindexao da economia. "Quando a inflao fica alta por muito tempo, as pessoas comeam a achar que essa  a inflao que ser tolerada pelo governo", afirma o economista Mansueto Almeida, do instituto de Pesquisa Econmica Aplicada (Ipea). "Como o desemprego est em nveis baixos, os sindicatos conseguem negociar aumentos generosos para os salrios das categorias que representam, levando em conta a perspectiva de inflao mais alta." Mas esses ganhos so ilusrios: com a inflao em alta e a economia indexada, os salrios nunca sobem acima dos reajustes nos preos. Os custos de produo tambm aumentam. Diz Mansueto Almeida: "A inflao no atrapalha apenas o consumidor que compra tomate, alface e carne. Ela prejudica a competitividade da indstria". 
     No passado, no Brasil, a inflao j foi atribuda ao tomate, ao chuchu, a fatores psicolgicos e aos atravessadores do varejo. Uma quebra de safra pode, sim, causar uma alta momentnea nos preos. Mas a inflao elevada e intermitente  uma evidncia de desequilbrios mais profundos. A inflao apenas viceja e se propaga quando existe mais dinheiro em circulao do que a economia  capaz de absorver. Ou, dito de outra forma, quando a demanda pelo consumo de produtos e servios avana em uma velocidade superior ao crescimento da oferta. A economia no  uma cincia exata, mas possui certas regras bem estabelecidas. Uma delas  que incentivos ao consumo aumentam a demanda, e, quando esta cresce acima da oferta, os preos sobem (veja o quadro com exemplos de lies econmicas na vida prtica na pg. 52). Outra lei econmica inquestionvel  que a nica maneira de combater verdadeiramente a inflao requer o controle da quantidade de dinheiro em circulao. Foi essa a lio que a primeira-ministra inglesa Margaret Thatcher, que morreu na semana passada, ps em prtica assim que assumiu o poder, em 1979 (veja a reportagem na pg. 56). Em Braslia, onde a prioridade  a popularidade da presidente, vive-se uma realidade paralela. As presses so por mais medidas populistas, o que implica mais gastos, privilgios, subsdios, obstculos  abertura comercial e a criao de mais empresas estatais.
     O Brasil vive um retrocesso intelectual e de mtodos aos anos 60, quando no havia nenhum dos atuais instrumentais de diagnstico e controle de desequilbrios econmicos estruturais. Hoje, sabe-se que, se o PIB de um pas qualquer cresce apenas 1% enquanto o volume de empregos aumenta 2%, no h nada a comemorar, pois essa relao significa que h mais gente criando menos riqueza e, portanto, derrubando a produtividade. Quanto mais produtiva for uma economia, mais poder crescer sem pressionar a inflao. Se em um pas qualquer o comrcio cresce mais do que a indstria, isso  um sinal de que os salrios esto aumentando mais do que a produo. Para manter um equilbrio saudvel, o ideal  que a produo e os salrios se elevem na mesma proporo. Bem, o "pas qualquer" dos exemplos acima  o Brasil. Esses fenmenos inflacionrios esto ocorrendo aqui e agora, com consequncias funestas se suas causas no forem identificadas e combatidas. 
     Na semana passada, com a divulgao de que os ndices de inflao superaram a meta estabelecida pelo governo, parece que se acendeu um alerta vermelho em Braslia. A avaliao geral  que a corroso na credibilidade da poltica econmica foi longe demais. A inflao comea a preocupar os aliados de Dilma no Congresso. O presidente da Cmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), defende a ideia de que o governo adote medidas mais enrgicas para eliminar o problema. Alves alega que a mera dvida sobre a capacidade de debelar a escalada dos preos alimenta expectativas adversas entre os empresrios, que por isso adiam investimentos e partem para a remarcao preventiva de seus preos. "As medidas anunciadas at agora foram paliativas e insuficientes", diz Alves. Para o ex-presidente da Repblica Jos Sarney, que viveu na pele o drama da perda de popularidade em decorrncia do fracasso do Cruzado e do descontrole inflacionrio, o governo no pode afrouxar o rigor monetrio. "A inflao desorganiza totalmente a economia e penaliza os mais pobres. Isso  a pior coisa que existe", afirma Sarney, "No meu governo, havia inflao com correo monetria, o que  pior ainda. No princpio do ms, todo mundo era rico. No fim do ms, todo mundo era pobre." J o senador Delcdio Amaral (PT-MS) sai em defesa das medidas adotadas pela presidente: "O governo est fazendo todo o esforo. E ainda tem instrumentos para utilizar, como o aumento de juros pelo Banco Central". 
     O Congresso tem como colaborar nos esforos, rejeitando projetos eleitoreiros que elevam as despesas pblicas e aprovando gastos oramentrios mais realistas. Justamente o contrrio do comportamento observado nos ltimos anos. A ajuda parlamentar, quando existe, restringe-se ao apoio a medidas baixadas pela presidente a fim de combater a carestia, caso da desonerao da cesta bsica e da reduo da conta de energia. Essas iniciativas se tornaram bandeiras publicitrias do governo, mas foram insuficientes para conter a disseminao dos reajustes. A boa notcia  que as condies climticas melhoraram no campo, e o preo do tomate e de outros produtos alimentcios est em queda. A m notcia  que as causas histricas e estruturais da ainda elevada inflao brasileira permanecem intactas. A falta de infraestrutura adequada fez com que os caminhes formassem filas nos portos, aumentando o preo do frete mesmo das mercadorias consumidas localmente. Uma reduo efetiva na carga tributria teria o poder de dar mais competitividade s empresas e baixar seus custos. No modelo de Margaret Thatcher, as oportunidades deveriam ser semelhantes para todos. No modelo petista,  o governo que escolhe aqueles que sero beneficiados. Do ponto de vista eleitoral, o governo conta com um cenrio favorvel. Os dias de euforia na economia ficaram para trs, mas mesmo o baixo ritmo de crescimento previsto para os prximos trimestres dever ser suficiente para preservar a taxa de emprego em patamares historicamente altos. Cedo ou tarde, porm, mais cedo do que tarde, a inflao ter de ser combatida com medidas amargas, mas as nicas eficazes. Nessa hora  que as damas de ferro provam seu valor de estadistas. 

A INFLAO DO TOMATE
Preo do quilo do tipo AA, em reais.
15/3 4,36
22/3 6,90
26/3 6,09
28/3 7,81
3/4 5,96
5/4 6,09
8/4 5,07
11/4 4,43
Fonte: Ceagesp

MEU
TOMATE
MINHA VIDA
Governo Federal
BRASIL
Pas rico  pas sem pobreza

VARIAO DOS PREOS NOS LTIMOS 12 MESES
Meta da inflao 4,5%
Inflao (IPCA) 6,59%
Mensalidade escolar 9%
Aluguel residencial e condomnio 10%
Mdico 11%
Pet shop 12%
Empregado domstico 12%
Manicure 12%
leo diesel 14%
Sandlia feminina 14%
Cerveja 16
Po de forma 19%
Banana-prata 22%
Feijo-preto 25%
Arroz 30%
Cebola 76%
Batata 97%
Tomate 122%
Farinha de mandioca 151%

A LIO DA CESTA BSICA
Curso: economia bsica
Tema: a lei de oferta e procura

Exerccio prtico
Medida: visando a reduzir as presses inflacionrias vindas dos alimentos, o governo ZEROU as alquotas do PIS/Cofins, que eram de 9,25% e 12,5%

Resultado esperado
Disse a presidente: "Conto com os empresrios para que isso signifique uma reduo de pelo menos 9,25% no preo das carnes, do caf, da manteiga e do leo de cozinha, e de 12,5% no da pasta de dentes e dos sabonetes

Resultado obtido
Na mdia, os produtos cujos tributos foram zerados tiveram queda de apenas 0,5%

Lio
A queda no preo de um produto tende a fazer seu consumo crescer. Se no h aumento de oferta equivalente, o preo volta a subir.

= Nota do governo ZERO

A LIO DA ENERGIA 
Curso: economia bsica
Tema: no existem aes sem custos (popularmente, no existe almoo grtis)

Exerccio prtico
Medida: para conter a inflao e dar mais competitividade  indstria, o governo determinou uma reduo no preo da produo e distribuio de eletricidade.

Resultado esperado
Queda de 20%, em mdia, nas tarifas

Resultado obtido
As tarifas residenciais caram 16% e as industriais 20%

Complicador
Com reservatrios vazios, as hidreltricas reduziram a gerao de energia e a produo ficou a cargo de termeltricas movidas a leo combustvel ou gs, que, no conjunto, custam 900 milhes de reais a mais por ms ao sistema eltrico. Pela lei, esse custo a mais teria de ser repassado para as tarifas, encarecendo-as. Para no deixar quebrar as empresas de energia, o governo decidiu recorrer ao Tesouro e dar a elas parte dos 900 milhes de reais que deveriam ser obtidos com o aumento das tarifas. Mas quem vai ressarcir o Tesouro? Os contribuintes, que tero aumento de impostos.

Lio
No existe almoo grtis. Toda bondade do governo, que no produz um centavo, tem um custo, e quem paga  sempre o cidado brasileiro.

= Nota do governo 4

O AVESSO DA OUTRA
Margaret Thatcher e Dilma Rousseff so descritas como "damas de ferro"  mas suas vises de mundo no poderiam ser mais opostas.

ESTADO NA ECONOMIA
DILMA: Criou quatro estatais.
THATCHER: Privatizou cinquenta estatais

CONTROLE DA INFLAO
DILMA: Tenta apagar focos inflacionrios com medidas pontuais
THATCHER: Cortou os gastos do governo e elevou os juros.

DIPLOMACIA
DILMA: Trata a po de l a ditadura com eleies da Venezuela e se submete aos desmandos da Argentina no comrcio bilateral.
THATCHER: Retomou por meio blico as Ilhas Malvinas, invadidas pelos militares argentinos, o que desmoralizou e derrubou a ditadura.

SINDICATOS
DILMA: Inseriu ou manteve 2000 sindicalistas no governo, mas negocia duramente com os sindicatos.
THATCHER: Esvaziou os sindicatos, que, antes dela, derrubavam governos e infernizavam a economia.

INDIVIDUALIDADE
DILMA: O cidado deve apoiar o estado e, se preciso, sacrificar seus interesses.
THATCHER: O estado deve estar a servio do cidado, e no o contrrio.

CONTAS PBLICAS
DILMA: A arrecadao tem de ser suficiente para cobrir os gastos do governo.
THATCHER: O governo tem de gastar menos do que arrecada. Ponto.

INVESTIMENTOS
DILMA: Esnoba o capital externo, demoniza o lucro e muda as regras do jogo a toda hora. Assim, s atrai investimentos para o consumo, quando o que interessa  o dinheiro de longo prazo para produo e infraestrutura.
THATCHER: Fez de Londres a capital financeira da Europa e da Inglaterra um bom lugar para investir com segurana.

COM REPORTAGEM DE BIANCA ALVARENGA


2. UMA DAMA DO LADO DIREITO DA HISTRIA
Margaret Thatcher salvou a Inglaterra do declnio econmico e poltico. O conjunto de suas ideias ganhou um nome, thatcherismo, algo que nenhum outro premi britnico alcanou  nem Winston Churchill.
DUDA TEIXEIRA

     Margaret Thatcher morreu na ltima segunda-feira, dia 8, vtima de derrame. Ela tinha 87 anos. Andou esquecida at que Merryl Streep a representou no cinema, em um filme espetacular que se fixou mais no outono de sua vida, quando Thatcher, viva e senil, conversava com Denis, o marido morto havia anos, como se ele estivesse tomando caf da manh com ela. Comovente e triste. Mas Thatcher, feita baronesa depois de deixar o posto de primeira-ministra, se permitia raras demonstraes pblicas de emoo. Ela estava com os olhos marejados de lgrimas quando diante da imprensa se despediu do cargo, ocupado por ela por onze anos, entre 1979 e 1990. Nesse perodo, transformou a poltica na Inglaterra, ajudou a enterrar o moribundo comunismo sovitico e criou uma doutrina de poltica econmica, o thatcherismo, que, em diferentes gradaes, dominou o perodo ureo da globalizao na dcada de 90, dando racionalidade aos polticos no poder e tirando milhes de pessoas da misria em pases to dspares quanto o Vietn e o Mxico. Foi chamada pela primeira vez de Dama de Ferro por um jornal oficial sovitico, que julgou estar ofendendo-a. Ela adorava o apelido. Fez jus a ele na vida pblica. Mostrou que governo e povo no so a mesma coisa. Governo  uma gigantesca burocracia cujos interesses s em alguns poucos casos, aqueles em que h ganho poltico, coincidem com os do povo. Por isso  preciso vigiar os governantes, cobrar eficincia deles e diminuir seus poderes. 
     Thatcher foi demonizada pelas esquerdas retrgradas por ter obtido sucesso em suas polticas e t-las imitadas em quase todas as partes do mundo. Com razo, pois o salvacionismo insurrecional das esquerdas s tem, na cabea de seus seguidores, alguma chance quando tudo d errado em um pas e a misria se instala. Tolice. Se fizessem uma pequena pesquisa histrica, descobririam que, no Ocidente, os partidos de esquerda crescem mesmo  nos momentos de bonana econmica, quando o capitalismo produz excedentes econmicos bastantes para sustentar a imensa turma de socialistas e assemelhados que invariavelmente ganham a vida sem trabalhar. Foi assim nos Estados Unidos. Durante a dura recesso dos anos 30, o partido comunista do pas praticamente desapareceu. Foi s no esplendor econmico do ps-guerra, quando a classe mdia enriqueceu e os pobres viraram classe mdia, que as ideias socialistas e comunistas ganharam maior projeo nos Estados Unidos. No  por outra razo que o esquerdismo no Ocidente tem sempre um qu de esnobismo, um ar de superioridade moral, intelectual e de classe. Isso vem da certeza de que, enquanto derrubam o sistema nos bares e em ambientes chiques, o capitalismo continua firme produzindo o excedente econmico que permite aos militantes viver sem trabalhar e aos ricos dizer-se de esquerda sem o temor de perder tudo para os revolucionrios. O esquerdismo no Ocidente  apenas um estado de esprito. Quando passa disso, cobra um alto preo. 
     Na Inglaterra deu-se um fenmeno semelhante. O conservador Winston Churchill, vencedor na II Guerra Mundial, no foi apeado do poder pelos socialistas no alvorecer da paz por causa das penrias impostas ao povo. Livres da guerra e da pobreza pela ajuda dos Estados Unidos, os eleitores ingleses sentiram-se confortveis o bastante para embarcar na experincia socializante que afundaria a Inglaterra  at que Thatcher salvasse o pas. Entre 1945 e 1951, praticamente todas as grandes companhias de bens e servios foram estatizadas e passaram a se pautar por aquela dinmica antiprogresso, antitecnologia e antieficincia que caracteriza a esquerda no poder. A British Telecom, por exemplo, conseguiu bloquear a entrada do fax na Inglaterra. A empresa temia que o aparelho fosse uma ameaa ao uso do telefone para falar. Em quadro muito familiar aos brasileiros antes das privatizaes do governo Fernando Henrique Cardoso, um telefone na Inglaterra podia ficar mudo seis semanas antes que aparecesse um tcnico da estatal para tentar resolver o problema. Sem concorrncia, sob a proteo do monoplio, as estatais tripudiavam sobre os usurios e o pblico. Prejuzos? O governo cobria. Mas de onde tirar tanto dinheiro? Ora, aumentando os gastos pblicos e deixando a inflao devorar o poder de compra das pessoas. Somados todos os sindicatos, os dias de trabalho eliminados por greves na Inglaterra antes de Margaret Thatcher se contavam em dezenas de milhes por ano. Thatcher chegou e acabou com o processo de destruio do pas. "A Inglaterra antes de Thatcher era como a Argentina de hoje, mas sem a maquiagem dos ndices", resume o economista Malson da Nbrega, que vivia em Londres naquele perodo. 
     Na campanha para as eleies de 1979, o Partido Conservador sagrou-se vitorioso e Margaret Thatcher assumiu como primeira-ministra. Suas convices, formatadas no liberalismo, foram fortalecidas por valores morais e religiosos (ela era metodista e converteu-se ao anglicanismo aps se casar). A inflao, segundo ela, era um "mal moral traioeiro". A liberdade individual, um valor moral a ser defendido em sua totalidade. O governo Thatcher teve um comeo difcil. Para combater a alta dos preos, ela elevou os juros e passou a faca nos gastos governamentais. Como resultado imediato, a atividade econmica esfriou e o desemprego triplicou. A popularidade dela afundou, mas suas convices no se abalaram. Em 1982, um fator inesperado contou a seu favor. Em abril, o ditador argentino Leopoldo Galtieri ordenou a invaso das Ilhas Malvinas (Falklands para os britnicos), governadas pelos ingleses desde o incio do sculo XIX. Em defesa dos kelpers, a populao local, Thatcher mandou reconquistar as ilhas, o que ocorreu dez semanas depois. O retorno dos soldados vitoriosos foi uma festa. "As Malvinas empurraram a popularidade de Thatcher para cima", diz o economista John Van Reenen, da London School of Economics. "Sem a guerra, ela provavelmente teria perdido a eleio de 1983." 
     Em seu segundo mandato, Thatcher comprou briga com os sindicalistas, a maioria deles agraciada e controlada pelo Partido Trabalhista. Os mineradores estavam entre os mais paparicados. As minas de carvo, que sustentaram a Revoluo Industrial do sculo XVIII, estavam mais profundas e eram de difcil explorao. Com isso, o produto importado da China custava 25% menos. Antes de Thatcher, a presso dos funcionrios garantia o monoplio do carvo nacional e obrigava o governo a pagar pesados subsdios ao setor. Proteger um setor ineficiente no fazia sentido para Thatcher. "Voc no sai de casa para comprar um palet quatro vezes mais caro s para manter as pessoas no trabalho", disse ela. O Sindicato Nacional de Mineradores convocou uma greve e Thatcher chamou policiais de outras cidades para combater os piquetes, para que no tivessem d de usar o cassetete. Um ano depois, a paralisao acabou e a Justia multou o sindicato. 
     Com os sindicatos enfraquecidos, inflao controlada e previsibilidade na poltica econmica, a Inglaterra atraiu investidores estrangeiros. Um deles foi a montadora japonesa Nissan, que instalou uma fbrica na cidade de Sunderland, no norte do pas. Em 1987, cinquenta indstrias japonesas j haviam se estabelecido na Inglaterra. O investimento externo triplicou. "Se Thatcher no tivesse existido, a Inglaterra seria hoje mais pobre, mais influencivel por outras naes e estaria totalmente afundada na crise europeia", diz o historiador Timothy Knox, diretor do Centro de Estudos Polticos, em Londres, fundado por ela. "E suspeito que a Guerra Fria teria durado mais." 
     No por acaso, os detratores de Thatcher so os mesmos reacionrios que tentam recompor a barreira que dividia Berlim em duas. Gente mais sensata v no liberalismo de Thatcher parte da explicao para as crises financeiras recentes. Pode at ser, mas ela no tinha como prever o surgimento dos subprime e dos derivativos, mecanismos de alto risco que maquiaram a bolha especulativa. Seu legado  altamente positivo, a comear pela converso dos socialistas do Partido Trabalhista ingls ao sistema produtivo de mercado, o capitalismo. Thatcher dizia ter sido essa sua maior conquista. Em 1995, o Partido Trabalhista alterou o seu programa, eliminando a clusula que previa a socializao dos meios de produo. Disse o chefe de estratgia do premi trabalhista Tony Blair: "Somos todos thatcheristas, agora".
     
VISO DE FUTURO  A premi, frrea na gesto do estado, em q981: a validade de suas ideias era e, em grande parte, ainda  universal.

FESTA POPULAR - A primeira-ministra em visita a soldados nas Ilhas Malvinas aps a guerra de 1982: os bem Treinados britnicos foram muito superiores aos recrutas argentinos. A vitria inglesa levou ao fim da ditadura no pas latino-americano, um ano depois.

AMIZADE A PRIMEIRA VISTA - Thatcher com Ronald Reagan, em 1985: "Ela era agradvel, feminina, graciosa, inteligente, e ficou evidente nas nossas primeiras palavras que ramos almas gmeas", disse o presidente americano.

UNIO - Margaret Roberts, filha de um quitandeiro, em 1951, no casamento com o comerciante Denis Thatcher, com quem teve um casal de gmeos.

COMPETNCIA - A premi com George Jefferson, um executivo da indstria aeroespacial que assumiu a presidncia da British Telecom aps a privatizao, em 1984. Thatcher contratou headhunters para escolher os diretores das novas companhias.

DISTRBIOS EM LONDRES - Policiais tentam conter  protesto de mineiros na capital inglesa, em 1984: os sindicatos que paralisaram o pas contavam com o apoio do Partido Trabalhista, de oposio a Thatcher.

SABEDORIA QUE FAZ FALTA
Thatcher era direta, incisiva e, muitas vezes, intransigente, mas mantinha a coerncia e a clareza de ideias sempre.

No, no, no. - Discurso no Parlamento ingls contra um plano de transferncia de poderes para a Comisso Europeia, em 1990.

Liberdade, igualdade, fraternidade  eles se esqueceram de obrigaes e deveres, eu acho. E ento,  claro, a fraternidade desapareceu por muito tempo. - Sobre a Revoluo Francesa, em entrevista ao jornal francs L Monde, em 1989.

No seja tolo, senhor Gorbachev, vocs mal conseguem alimentar seus prprios cidados. - Em resposta ao ento secretrio de Agricultura da Unio Sovitica, quando ele afirmou que o comunismo era superior ao capitalismo durante visita  Inglaterra, em 1984.

O problema do socialismo  que uma hora ele acaba com o dinheiro dos outros. - Em entrevista na televiso inglesa, um ano aps assumir a liderana do Partido Conservador, em 1976.

Ns queremos uma sociedade em que as pessoas sejam livres para fazer suas prprias escolhas, cometer seus erros, ser generosas e misericordiosas.  isso o que ns entendemos por uma sociedade moral. - Discurso na Universidade de Zurique, na Sua, em 1977.

O problema com voc, John,  que a sua espinha dorsal no alcana o crebro. - Ao secretrio John Whittingdale, que insistia em apoiar o Tratado de Maastricht, que estabeleceu a unificao poltica da Europa, em 1992.

Esse  o nosso povo, nossas ilhas. Eu disse imediatamente: se elas forem invadidas, teremos de traz-las de volta. - Ao ministro da Defesa John Nott, sobre a invaso argentina das Malvinas, em 1982.

COM REPORTAGEM DE TATIANA GIANINI E NATHALIA WATKINS


